Cheguei ao hospital onde Silvia tinha sido levada e fui informado pelo pessoal dos bombeiros que o velocímetro do carro parou marcando 170km.
Pô!!!
Porque ela estava nessa velocidade, o que ela pretendia?
Eu não pude subir na UTI para vê-la, os médicos pediram para eu aguardar o horário de visitas. Eram 21:00hs quando me foi permitido subir, eu estava nervoso, já havia tentado falar com seus familiares, mas no número que eu tinha só estava dando ocupado. Quando entrei na UTI, meu coração parecia que iria sair pela boca,
Silvia estava em coma induzido, o braço direito e as duas pernas estavam enfaixadas e seu rosto bem inchado e envolto a alguns aparelhos que eu não sei especificar.
Aquela moça que eu só conhecia pela rede social, por quem eu tinha muito carinho, acho que até mais do que eu queria, agora ela estava ali, num leito de hospital sem eu saber se iria de fato ter a oportunidade de vivenciar uma história...
A enfermeira que estava de plantão veio me avisar que o tempo de visita havia acabado, insisti pra ficar apenas 5 minutos a mais e ela me orientou a sair, dizendo que o estado de saúde dela era muito delicado. Desci e Tina me esperava na portaria junto com a tia Dora.
No caminho para casa da minha tia eu estava meio desolado, no carro o silêncio foi quebrado pela tia Dora que começava a orar.
Quando chegamos eu não quis entrar, precisava ficar sozinho, mas Samuca veio ali para me dar apoio.
Novamente tentei ligar para residência da Silvia, ela morava com a mãe, eu precisava informar sobre o que aconteceu... Agora o telefone começa a chamar...
Se eu soubesse eu continuaria seu amigo, mas não me envolveria, não pode ser alguma coisa está errada...
- To aqui Marcos.
- Como assim em Belo Horizonte? Rapaz se você não tem o que fazer eu tenho, minha esposa está num congresso e me ligou ontem dizendo que estaria chegando amanhã.
- Marcos faz o seguinte, procure o número da Santa Casa de BH e liga lá, eles te darão a informação certa.
- Você está maluco! Vai encher o saco de outra pessoa! ...disse ele batendo o telefone na minha cara.
Já se passavam das 22h40hs. eu teria que voltar pra São Paulo daqui a dois dias, como fazer isso agora?
Eu estava muito cansado já faziam mais de 24hs que eu não dormia Samuca então me convenceu a ir descansar, ele havia escutado toda a conversa, sabia o que eu precisava...
No dia seguinte por volta das 06hs da manhã meu celular toca, era da casa de Silvia, Marcos pedia mais informações.
- Eu tentei ligar para minha esposa a noite toda, isso por acaso é um sequestro?
- Não Marcos. Realmente houve um acidente e sua esposa está internada na UTI aqui de BH.
- Mas quem é você, de onde você a conhece e porque ela se acidentou aí?
- Marcos você já ligou no hospital?
- Já sim, mas não pode ser a minha Silvia...
- Então venha para cá e aqui conversamos.
Eu, além de tudo que havia passado, todo envolvimento, todos os desencontros agora teria que encontrar o marido e explicar tudo para ele, o que falar.
Levantei e tio Valdir veio conversar comigo, pedindo para eu entregar todos meus problemas a Deus, dizendo que só Ele poderia mudar as coisas e me fazer entender a razão. Mas que Deus é esse que permite eu me envolver em tudo isso? Meu tio me acompanhou no café e logo em seguida fui ao hospital com a Tina.
Samuca foi chamado pela empresa para resolver alguns problemas e iria ficar o dia todo fora.
No hospital a angústia parece aumentar, a demora dos médicos para dizer como Silvinha está, contribuem para isso.
Eram em torno das 09hs e os médicos me chamaram e disseram que o estado de saúde de Silvia havia piorado e que eles não estavam conseguindo estabilizar ela.
Minha cabeça parecia que iria explodir, meu celular toca, era Marcos dizendo que estava previsto pro seu voo chegar as 10h45min.
O que eu dizer a ele, como, porque Silvia estava em Minas Gerais? ...eram perguntas que me martelavam.
Eu sou psicólogo na capital de São Paulo e atuo na área há apenas seis anos, ser psicólogo era uma das coisas que contribuíram para que nossa amizade fosse ficando ainda maior, tínhamos muitos assuntos em comum.
Tina me aconselhou a dizer que eu e Silvia éramos apenas amigos devido à mesma função, eu ainda não sabia, não gosto de mentiras e sei que se precisasse fazer isso, eu me daria mal.
As 10h20min. uma enfermeira veio me dizer que Silvia precisaria fazer uma cirurgia de emergência, no mesmo instante meu celular toca, é Marcos me pedindo para encontrá-lo no aeroporto.
Tina já não tem palavras para me dizer, no caminho do aeroporto, minha cabeça começa a rodar, Tina insiste para eu esquecer essa história e sumir, uma vez que eu não conhecia o Marcos. Mas eu não podia fazer isso.
No aeroporto um rapaz de estatura alta e magro com óculos bem chamativo me pergunta:
Eu e Tina nos apresentamos e seguimos os três ao hospital.
No trajeto começo a conversar com Marcos e conto a ele detalhadamente toda história, sem esconder uma só vírgula. Marcos começa a chorar dizendo não acreditar, mas nem eu estava acreditando.
Quando eu disse que estávamos conversando já há algum tempo ele me disse que ficou num período de quatro meses acompanhando a filha num tratamento de uma doença rara no exterior, disse também que ela não havia suportado e falecera há exatos 13 dias.
Aquela história me comovia, porque Silvia faria aquilo... Mas quanto mais eu ouvia, mas eu queria ouvir, pode ser que ela procurasse em mim uma válvula de escape ou algo assim.
Aquele homem deveria estar revoltado, mas não, ele ainda chorando mostrava calma.
Tina chorava enquanto dirigia.
Eu desde quando comecei os estudos, nunca mais parei, na faculdade eu era reconhecido pelas minhas teses, como estava eu sendo enganado por uma mulher dessa maneira?
Chegamos ao hospital e eu não conseguia olhar naquele homem, Marcos queria saber onde ela se acidentou, em que hotel ela ficou, o quarto... Algumas informações eu não sabia.
Tina disse estar com fome e acabamos por comer algo na lanchonete do hospital, quando voltamos ao saguão a atendente me chamou e pediu para eu aguardar que o médico queria falar sobre Silvia.
Só poderia ser sobre o estado dela devido à cirurgia, Marcos insistentemente dizia em transferi-la para Goiânia num hospital particular.
Tio Valdir chega ao hospital junto da tia Dóra bem no momento que o médico nos chama a uma sala ao lado.
- Boa tarde, sou o responsável pela equipe que estava cuidando da Senhora Silvia e venho com pêsames dizer que fizemos tudo o possível para mantermos ela conosco, fizemos uma cirurgia de emergência onde tivemos êxito, mas logo após ela teve uma parada cardiorrespiratória onde não foi possível trazê-la de volta.
O médico se despediu da gente ali deixando o martírio de viver com aquela situação...
Marcos entrou em desespero e saiu correndo sem rumo, Tina estava chorando em soluços e eu por mais forte que eu parecesse, eu não conseguia segurar as lágrimas.
Tudo estava acabando ali.
- Alô Matheus a Silvia melhorou?
- Acabou Samuca... falei chorando,
- Poxa nem sei o que dizer Matheus... Logo estarei aí com você... disse ele finalizando a conversa.
De volta à realidade Tina me vem dizendo que Marcos estava me chamando...
- Ô Matheus onde você estava o Marcos quer falar contigo.
Quando encontramos Marcos veio falando comigo pedindo desculpas por todo transtorno, disse ele que iria fazer o traslado para Goiânia. Marcos em meio à dor dizia isso com uma expressão de paz em seu rosto, ele ainda chorava, mas dizia que a mãe gostaria de ser enterrada próxima a filha.
Eu quem devia me desculpar, afinal era eu quem estava falando diariamente com aquela moça.
Eu nunca tive nada declarado com Silvia, mas sabia em mim que eu e ela nos falávamos como namorados.
Ele insistia em falar comigo, eu estava cheio de culpa, e para mim era como se ele cravasse uma faca em meu peito.
Marcos pede pra falar comigo em particular e eu sinceramente fiquei com receio.
Fomos para fora do hospital e Marcos pediu pra eu ficar em paz, dizia ele que o ocorrido não era culpa minha, e Marcos disse mais uma coisa:
-Matheus eu não sei nada sobre você, mas sei que você não é uma má pessoa, mas vejo também que uma sombra paira em sua vida, você acredita em Jesus?
Eu não estava crendo naquilo que estava ouvindo; depois de tudo aquilo que estava ocorrendo ele, Marcos queria falar em Deus para mim.
- Marcos respeito sua crença, mas não, não acredito em Deus e para ser sincero não sei como você pode acreditar com tudo isso que vem te ocorrendo...
